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Jun 09

O Medo...

 
Decorria o ano de 1979 quando, ao virar do avesso, velhas papeladas, guardadas em caixas de cartão, daquelas dos sapatos, dei com um envelope amarelecido pelo tempo, que tinha escrito, a tinta desbotada, os seguintes dizeres: Se estiver Vivo abrir este envelope daqui a 5 anos (1966). Se estiver Morto, por favor, queimem-no sem ler o seu conteúdo. Lobito, Junho de 1961.
 
Acendi um cigarro. Aspirei bem o fumo. Expeli-o lentamente, enquanto, a medo, olhava o envelope.
 
Não me recordava nada dele. Nem imaginava o que teria escrito. Nem sonhava o me me havia levado a fazer tal coisa.
 
A Medo lá o abri calmamente. Cheirava aquele papel bafiento. Dava a impressão que me fazia coceira nas mãos.
 
Uma vez aberto, retirei do seu interior, uma folha no formato A4, muito amarelada, e sem linhas, manuscrita, a tinta azul, muito esbatida, de caneta de tinta permanente.
 
Não vou reproduzir na íntegra o que por lá estava mas era uma Prova evidente do meu Medo de morrer na Guerra Colonial.
 
Nesse ano, 1961, havia sido apurado para todo o Serviço Militar. No ano seguinte consegui o tão desejado Adiamento para continuar os meus estudos de Medicina. Em 1963 não me renovaram o Adiamento e ingressei no Exército.
 
A vida deu muitas voltas. O tal envelope ficou no role dos esquecidos e, por mero acaso, 18 anos depois, o encontrar, abrir, ler o seu conteúdo, mostrar a minha mulher que, após lê-lo, propôs-me que lhe chegasse fogo, pois era uma recordação, demasiado dura de roer, de um jovem que sofria psicologicamente, que sofria por antecipação, porque não sabia se estaria vivo ou morto dali a 5 anos, porque havia sido apurado para todo o Serviço Militar, quando o seu maior desejo era o de cursar Medicina!
 
Porquê estou a partilhar isto convosco?!
 
Hoje fui à Farmácia, ao final da tarde, aviar duas Receitas Médicas, para dois medicamentos, cuja primeira toma, acaba amanhã de manhã. Estava bastante calor. De minha casa, até lá, a pé, são cerca de 3 quilómetros. No regresso passei pelo Laboratório de Análises Clínicas, levantei as análises e dirigi-me ao Posto Médico, para as mostrar à minha Médica de Família.
 
Estava à minha espera. Aguardei que atendesse dois utentes. Chamou-me pelo altifalante. Cumprimentámo-nos. Sentamo-nos. Entreguei-lhe o envelope e, muito sério, contra o que é meu hábito, com muitíssimo medo, olhei os seus sinais exteriores, para ver se a notícia seria boa ou má!
 
Olhou para mim. Sorriu-se e completou: - Temos homem! Os valores estão a regressar ao normal. Vamos continuar a fazer o tratamento com os mesmos medicamentos.
 
Fiz um sorriso amarelo!
 
Anime-se senhor Marcolino, está para aí a sofrer por antecipação...!!!
 
- Porra Drª., desculpe-me a má educação, mas quem tem cu, tem medo!
 
Muito séria ficou-se a olhar para mim e respondeu-me: - Igualzinha à frase que o meu falecido pai, dizia ao seu médico assistente, antes de morrer; só que ele faleceu com Cancro no Pâncreas em 6 meses, e o senhor Marcolino está a fazer um pesado Tratamento Preventivo, que nada tem a ver com o seu Pâncreas.
 
Desejamo-nos um bom fim-de-semana. Recomendou-me que não me esquecesse das tomas dos medicamentos, e que se até 23 de Julho notasse algo de anormal, que lá fosse falar com ela!
 
De regresso a casa, sentei-me dentro do templo da nossa Igreja, mesmo em frente ao lindo Sacrário e, com lágrimas nos olhos, pedi-Lhe que não me deixasse sofrer por antecipação, para ser, assim, ainda bem mais Feliz...!!!
 
Marcolino Duarte Osório
- Peregrino -
2009-06-13
 
publicado por Marcolino Duarte Osorio às 01:49
sinto-me: Estou muitisssimo Feliz!

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