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Jul 09

Faleceu o meu Amigo Manuel Diabão...

 
Quase da minha idade, mais novo uns 6 anos, homem entroncado, homem muitíssimo sereno, homem Bom, homem natural do Alentejo, serviu na Marinha como Fuzileiro Especial.
 
Finda a comissão regressou à Cidade da Praia, Cabo Verde, em busca de uma mulata, com quem casou, tiveram uns seis ou sete filhos, todos nascidos aqui neste prédio, um rapaz e os restantes bonitas raparigas, aguerridas e ciumentas, como toda a Cabo-verdiana o é!
 
Já com os filhos quase criados, a sua companheira, pede o divórcio, cansada de Portugal, com o excesso, muitíssimo excesso, da ausência da sua terra, para lá partiu, deixando todos para trás!
 
O meu Amigo Manuel, homem bom, como sempre foi, não tardou a juntar-se a outra mulher, de tez negra, mas de uma modéstia, e de uma bondade, característica das negras africanas de Angola!
 
Esta senhora, já vinha de um primeiro casamento, bastante problemático, e com ela vieram mais três filhos. Três mocetões, um mais arisco que os outros dois irmãos de sangue, foi o que morreu primeiro, vitima de uma Overdose de má qualidade.
 
A casa do Diabão, parecia-se mais com um colégio misto, do que uma casa de família. Davam-se todos bem, apesar de serem de etnias bem diferentes.
 
A segunda mulher do meu amigo Manuel, adoeceu, e só na Alemanha encontrou paliativo para o seu mal, em casa de um dos seus filhos, que para lá havia seguido em busca de melhores dias.
 
O Diabão, cedo se habituou a ter dois empregos, para sustentar tanta gente. Um como motorista de uma empresa de distribuição em Lisboa, e o outro como empregado de mesa num Restaurante aqui da zona. De Segunda a Sexta, servindo os jantares. Sábados e Domingos, fazia os dois turnos: Almoços e Jantares. Resistente e paciente como ele sempre foi, aguentava aquilo que ninguém desejaria enfrentar!
 
Um a um os filhos foram saindo de casa. O casal ficou apenas um com o outro, depois de terem tido casa cheia e muita boquinha para sustentar!
 
Ultimamente, depois de mais uma prolongada estadia na Alemanha, da sua segunda Mulher, deixei de ver, com assiduidade, isto é, diariamente, o meu Amigo e vizinho Diabão.
 
As cidades, há dezenas de anos para cá, tornaram-se impessoais, e viraram uma espécie de Blogosfera, plena do pseudónimo do vizinho, do 1º Dto, do vizinho, do 10º A, do vizinho do 5 B, onde ninguém sabe de ninguém, nem quem quer que seja, deseja saber do seu familiar, do seu amigo ou mesmo do seu vizinho, por adoentado que tenha sido visto...!
 
Eu lá ia sabendo do Diabão. Batia-lhe à porta e, quando não ma abria, ia visita-lo ao Hospital Pulido Valente.
 
Fui para fora uns dias. Antes de partir fui visitá-lo. Deu-e a boa-nova de que regressaria a casa dali a dois dias. Assim aconteceu.
 
Depois de ter regressado da praia durante o banho de chuveiro, atendi o meu telemóvel, como é meu mau hábito, e do outro lado, uma voz de mulher falou:
 
- Sr. Osório?
 
- Sim diga lá!
 
- Já abe da notícia?
 
- Não me diga que a minha casa ardeu...
 
- Cruzes, Canhoto, ó senhor Osório...
 
- Desculpe lá, estava a preparar-me para alguma chatice que me queira dar a saber.
 
- Olhe, o senhor Manel...
 
- Sim diga lá.
 
- Aquele da preta do 2º andar.
 
- Sim, continue, já sei quem é!
 
- Morreu esta madrugada, no Pulido Valente. O senhor sabe que ele tinha SIDA?!
 
Senti-me nauseado. Senti um aperto no peito. Senti-me tonto. Desliguei o chuveiro. Sentei-me no chão do polibã, com as costas encostadas a uma das paredes. Tremiam-me as pernas. Tremiam-me as mãos. Fiquei com a boca seca. Marejaram-se-me os olhos. Sentia o latejar do coração nos ouvidos. Sentia-me desfalecer. Pedi ao meu Anjo da Guarda que me ajudasse a superar, sem mazelas, nem efeitos colaterais, aquele momento tão dramático! Reagi rápido, em centésimos de seguntos e rpostei amargamente:
 
- Oh dona Cristina, SIDA tem a senhora nos ouvidos, ou enlouqueceu de vez, ou quê...!?
 
- O quê...?!
 
- O meu Amigo Diabão faleceu com uma nefrite que lhe atacou os dois dois rins, só pode ter sido isso. A Hemodiálise já não estava a dar efeito, nem podia ser operado! Eu conheço muito bem o seu médico assistente!
 
- O senhor ficou chateado?!
 
- Não! Nada mesmo, dona Cristina. Agora veja lá o que anda para aí a espalhar!
 
- Ele estava a fazer tratamento de quê, senhor Osório?
 
- Dona Cristina, pergunte aos familiares...
 
- Sim, é melhor, mas essas pretas, são mesmo levadas do demónio!
 
- Mais alguma coisa Dona Cristina, olhe que estou debaixo do chuveiro todo nu!
 
- Credo vizinho, já podia ter avisado há mais tempo!
 
Desliguei o telemóvel. Tenho andado meio amargurado, para não dizer, por completo. Foi-se o Gaspar, compincha e alegre, foi-se o Zé Lopes, baptizado pelo Deus Baco..., e agora o Diabão, homem calmo e pacatão, trabalhador, bom chefe de família, bom Pai, mesmo para os filhos, que não eram do seu sangue..., uns a seguir aos outros, todos bem mais novos que eu!
 
Para quando eu...!!!???
 
Haja coragem, descontracção, estupidez natural, e muitíssima boa disposição...!!!
                                              
Marcolino Duarte Osório
         - Peregrino -

Albufeira, 2009-07-01

publicado por Marcolino Duarte Osorio às 23:25
sinto-me: Uma flôr para ti, Manel!

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