25
Ago 10

Despertar...

 

Este meu despertar é tão belo, tão doce, que me deixa extasiado a olhar o meu novo dia, como quando era miúdo, e me sentava nas finas areias, ainda húmidas, à beira da nossa linda baía, olhando os morros, lá na outra margem, onde nascia o Rei Sol, que aparecia devagarinho, até se me revelar, por completo, depois de ter passado pelas metamorfoses, das miríades de tonalidades, das cores do arco-íris.

 

Quando ele se me mostrava agigantado, por inteiro, pintando as águas cristalinas, de um azul profundo, acordava para a realidade, regressava a casa, onde o pequeno-almoço me esperava.

 

Depois pegava na sacola dos livros, punha-a a tiracolo, e lá ia, sempre sozinho, a caminho da escola primária.

 

Ao meio-dia, findas as aulas, lá regressava eu, mas sempre à beira da água, sacola a tiracolo, sandálias, atadas uma à outra, dependuradas à volta do pescocito, chapinhando nas pequenas poças de água ainda meio quente, olhando os pequenitos peixes, que mais pareciam girinos, fugindo à frente dos meus pezitos.

 

Nunca desejei ter um relógio, coisa engraçada, porque nunca desejei andar a toque-de-caixa.

 

Quando entrei para o liceu, ofereceram-me esse animal de estimação, controlador do tempo do tempo do meu Tempo.

 

Esquecia-me sempre dele, em casa...

 

Ainda hoje tal acontece porque sempre me fez impressão negativa no pulso.

 

Mas como os tempos são modernos, tenho um relógio falante, com ele posso ver as horas, receber SMS, enviar MMS, falar até gastar o saldo do cartão, receber e enviar e-mails, tirar fotografias, fazer curtíssimas metragens, e esquecer-me dele em casa, porque também virei alérgico, a este sistema de vida, porque desejo morrer poeta, poeta sem tempo, poeta sem horas marcadas, poeta sem rima, poeta sonhador, que quando a dona Morte chegar dirá: Acorda Peregrino, está na hora de partires...

 

Surpreendido, por esta tão dura realidade, porque lá terei que morrer, desejo morrer sem dor, desejo partir, também sem tempo, sem relógio de pulso, sem relógio falante, sem saudades do tempo vivido, sem pena de nunca ter sido um poeta à séria, mas daqueles poetas escrevinhadores empolgados, com livros e livros nos escaparates, para trovadores fazerem de conta, para certos cantores cantarem meus versos que escritos, não dizem nada, mas quando, cantados por vozes lindas, fazem sorrir de felicidade todos os corações.

 

Despertar para ver renascer o meu Rei-Sol, para vê-lo re-entrar nas águas do lado do Mar, como grande Bola de Fogo, que se vai arrefecer, lá bem longe de nós, nas puras águas dos oceanos...!

 

Marcolino Duarte Osório

- Peregrino -

2010-08-25

publicado por Marcolino Duarte Osorio às 01:52
sinto-me: muito feliz...!!!

Marcolino:
Que linda prosa para um poeta - a séria, claro está!
Gostei de o acompanhar pelas paisagens africanas e imaginei-o com esse seu espírito tão irreverente e olhar arguto, a chapinhar pelos riachos...
Tive uma inveja saudável dessa sua infância.
É um tesouro, acredite-me.
Abraço
Marta M
Marta M a 27 de Agosto de 2010 às 19:01

Olá Marta!
Confesso que também tenho imensa pena que as minhas filhas não tenham nascido, e crescido, na minha terra natal, pois se tal tivesse acontecido, bem mais felizes seriam, olhariam com outros olhos, tudo aquilo que as rodeiam...!
Boa semana!
Abraço
Marcolino

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