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Mai 11

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Dei comigo a pensar...

 

Dei comigo a pensar, o que me levou a olhar lá para trás, rememorando que, desde muito jovem, fui sempre dado ao benfazer.

Ainda no final do Liceu, na Póvoa do Varzim, pertenci, como voluntário, à JOC. onde vi dramas humanos, tão disformes, que me assustaram, mas serviram para me ajudar amadurar os meus verdes anos.

Volvidos pouco mais de 50 anos, os mesmíssimos dramas, vestidos de roupagens mais modernas, teimam em continuar a existir. Ainda hoje continuam a existir pobres, a pedir por necessidade, porta a porta, em que o excesso que angariam, é partilhado, com outros pobres, do seu ghetto, porque esses novos pobres, do mesmo ghetto, muito a custo estão a perder a vergonha de dar a cara, para ir pedir auxilio médico/alimentar. Aí aprendi o que era saber Partilhar.

Vi alcoólicos inveterados que, em vez de aceitarem os bens perecíveis que lhes levávamos para a sua alimentação, e da do seu agregado familiar, atirarem-se contra nós, jovens imberbes, com palavras e atos, porque não lhes levávamos nem vinho, nem dinheiro; vinho para continuarem entorpecidos, adormecidos, para não verem, nem sentirem, no espírito e na carne, os seus dramas do desemprego.

Muitos anos mais tarde, fui convidado a ingressar num dos primeiros movimentos, em Lisboa, de apoio aos Sem Abrigo. Eram noites inteiras no voluntariado de auxilio a quem padecia ao relento, jovens e velhos. Quantas e quantas vezes dei as minhas sandes, para quem imensa fome tinha. De poucos passamos a muitos, assim já nos podíamos revezar convenientemente, fazer por nós nos nossos empregos, com menor esforço.

Mais tarde convidaram-me para ingressar num grupo de visitadores voluntários de uma das cadeias civis de Lisboa. Confesso que, esta fase de abordagem a um social bem diferente do meu, me custou deveras. Felizmente que foi curta. Os dramas sociais, bem diferentes, de todos os outros dramas, eram infindos, e a inerente violência psicológica, era desmesurada.

Por mero acaso, numa fortuita ocasião social, surgiu por parte de dois antigos amigos, o convite formal, para ingressar num grupo de Seniores, como visitador Voluntário a Doentes Terminais, do foro Oncológico.

Ainda hoje, não obstante a minha falta de visão, reduzida em 85%, e os achaques próprios, de um corpo de um antigo desportista federado, voluntariosamente teimo em doar-me, uma vez por semana, a todos aqueles que necessitam de se sorrir, de se distrair, no meio dos seus dolorosos males.

É uma enorme felicidade interior, conseguir que alguém, sofrendo de dores físicas, com medo de morrer, se sorria para mim, só porque lhe disse algo propicio, que o fez sorrir-se assim!

Então, em recolhimento, digo cá para comigo: Já ganhei o dia, tornei o medo deste ser humano, menos medo, a sua solidão bem menos solidão, e as suas dores físicas quase esquecidas...!

Descrevo-vos isto porque, o social, desde o pós-guerra, refiro-me à 2ª guerra mundial, tem-se tornado cada vez mais gélido, continuamos a fomentar a existência dos modernos Vale dos Leprosos, para onde são lançados, compulsivamente, esses pobres seres humanos.

Quanto Vale de Leprosos, lotados com Velhos Abandonados, proliferam por aí, porque os seres humanos, de tão desumanizados que se tornaram, com o maquiavélico odor do consumismo egoísta, em vez de se harmonizarem espiritualmente, tornam-se cada vez mais, muitíssimo mais, frios, carrascos, calculistas, exímios assassinos por falta de solidariedade, ao lançarem os seus familiares, os seus próximos, ao Mundo da Morte certa, sem os ajudarem com alimentos e medicamentos, exibindo-se principescamente, num mundo em que os ideais Cristãos, foram escondidos, estão esquecidos, por terem deixado de ter terreno propício para crescer.

Quase que comparo este desmando, tão desumano, a um pedaço de terra, outrora arável, onde hoje, perante este tsunami destruidor de sentimentos, de vidas humanas, nem a  planta do tremoço consegue medrar...

Já foram provocadas mortes e feridos em quantidade suficiente, para se parar definitivamente porque, desejo eu, tenham servido de lição, a todos nós, ou será que, os que ainda hoje nos matam, os que matam os seus familiares, com os seus desafetos, só pararão, quando ficarem cadáveres, nos seus luxuosos apartamentos, por morte súbita, e só dali a meses, quiçá anos, serem encontrados os restos fétidos, de quem a outros matou da mesmíssima forma...?!

 

Marcolino Duarte Osório

- Peregrino -

2011-05-20

publicado por Marcolino Duarte Osorio às 14:35
sinto-me: bem feliz

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